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É possível realizar um turismo consciente - Por Thaís Carneiro

Atualizado: Mai 28

No final do ano de 2017, como grande parte dos turistas brasileiros, fui curtir o ano novo em um região litorânea. Temos por aqui esta tradição de pular as setes ondas, de curtir o verão à beira mar ou à beira da piscina, usar branco na noite da virada com os pés na areia. Sou deste time e sobrevivo às praias lotadas com muito amor no coração.


Foi em uma caminhada pelo Portal das Artes, bairro relativamente novo de Paraty, no litoral carioca, que me deparei com esta pichação e uma máxima: Turismo é exploração!



Não é a primeira vez que vejo pichações em lugares turísticos. A primeira vez que vi, estava andando por Barcelona, acompanhada de um catalã que me levou a um mirante da cidade, frequentado por jovens locais. Lembro que quando vi, me deu aquela agonia de estar invadindo um espaço que não pertencia a mim e estar fazendo parte daquela exploração.


A sensação se repetiu ao me deparar com este muro pichado. Desde Barcelona, não só se passaram seis anos, como muito do que eu entendo por turismo, viagem e relações sociais também.Lá eu vi pichado no chão a frase Fora Turistas. Já sabemos que as nossas relações cotidianas são, em sua maioria, pautadas pela desigualdade. Porém, a naturalização faz com que acabemos por banalizar isso.


Mas não foi em Paraty ou em Barcelona, que a ideia de turismo predatório ficou clara pra mim.


Ponta Negra e o turismo predatório

Comunidade caiçara Ponta Negra, RJ

A comunidade caiçara de Ponta Negra foi o lugar que escolhi pra curtir o ano novo. A partir de uma escolha burguesa, de que eu queria curtir o mar e os pés na areia longe da muvuca de outras praias. O que me permitiria tamanho privilégio? O fato de que o acesso é relativamente difícil. É possível chegar ali de barco ou por uma trilha de duas horas e meia desde a Praia do Sono, que do mesmo modo só é acessível por esses dois meios de transporte. Além disto, a falta de sinal de telefonia celular, internet e energia elétrica afugentam a maior parte das pessoas. A questão é que por lá, a luz havia acabado de chegar.


O ponto inicial é que o meu privilégio de curtir a praia numa boa está calcado na falta de acesso de uma comunidade. Afinal, não foram eles que escolheram viver sem acesso aos ditos elementos da modernidade e ao menos, um posto de saúde. Com certeza, eu não sou a única pessoa a ter esta perspectiva egoísta, mas a reflexão é mais dolorosa e convenhamos que muitas vezes a gente foge disso.


Para além desta questão, o que me pegou bastante foi a forma com que os turistas lidaram com o dia a dia da comunidade. Deboches e falas grosseiras eram uma constante nos restaurantes familiares à beira mar. Exigia-se de tudo: que fosse mais rápido, que tivesse tal e qual ingrediente, que aceitasse cartão e o velho “Vem no capricho, né?” Reclamações sobre os valores cobrados e o som tocado também. Porém, a cena mais gritante eram as crianças em filas indianas carregando malas pesadas com turistas adultos atrás bem como elas sendo guias em trilhas de nível médio e alto. Quando digo crianças, estou falando daquelas com cerca de seis a nove anos. Era ali uma oportunidade de tirar um trocado!

Como vocês se relacionam em situações assim?

Unilivre, uma forma de turismo sustentável


Meses antes da minha experiência em Ponta Negra, visitei um lugar bem curioso em Curitiba: A Unilivre, Universidade Livre do Meio Ambiente. A proposta do espaço, que é uma organização não governamental, é a disseminação de conhecimento voltado à sustentabilidade e ao meio ambiente para toda a comunidade. Se o nome já é ousado, a forma como eles definem a sua missão no site também o é:


“Formação de líderes empreendedores para o século XXI comprometidos com a vida.

Sua filosofia é construir e disseminar conhecimentos teóricos e práticos que alicercem a construção de uma sociedade sustentável. Nesta abordagem, todo o cidadão, independente de sua profissão ou classe social, torna-se um parceiro e colaborador potencial da UNILIVRE.”

Universidade Livre do Meio Ambiente (Unilivre).

Curitiba, 04/05/99

Foto: Nani Gois/SMCS (N.8674)


Fundada em 1991, o espaço da UNILIVRE era uma antiga pedreira. Outros parques da cidade também tem esse perfil como Tanguá e a Òpera de Arame. O acesso ao público é a clareira que dá origem ao lago formado a partir de um erro na perfuração do solo, que acabou atingindo um lençol freático e toda a estrutura que conforma as salas da UNILIVRE e a caminhada vai te dar uma sensação maravilhosa que é a de estar atingindo uma gigantesca casa na árvore. Neste caso, várias mini casinhas.


Fiquei encantada com o espaço e de longe, foi o lugar mais incrível que visitei na cidade. Pouco conhecido, você vê um vaivém de visitantes, relativamente pequeno.

Por fim, o Turismo encontra suas formas de existir e para saber qual escolha tomar, é necessário a reflexão sobre a atividade ser uma via de mão dupla. Afinal, qual o retorno que a sua visita traz à comunidade? Da mesma forma, que medidas que você pode tomar cotidianamente para diminuir o seu impacto no mundo?




Por Thaís Carneiro

Paulistana, 29 anos, vegetariana, criadora do projeto Mulheres Viajantes e do Mulheres Viajantes vai às ruas. Mestranda em História pela USP, é estudante de guia de turismo e especialista em Fundamentos da Arte e da Cultura pela UNESP.


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